Eu não pari, e aí?

Matrioska

Quando me descobri grávida, em 2010, descobri também o universo da humanização do parto: mães, pais, parteiras, médicos, enfermeiras, doulas, militantes de todo tipo… gente que estuda, luta e divulga as milhares de vantagens do parto natural, bem como a dificuldade de conseguir parir com dignidade em nosso país.

Entrei numa comunidade do falecido Orkut chamado GPM – Gravidez, Parto e Maternidade – me informei aos montes e fui atrás de reservar o meu lugar ao sol, ou seja, fiz de tudo para que o João Miguel viesse ao mundo do jeito que Deus mandou.

Mas não rolou… Várias intercorrências levaram meus planos de parto natural por água abaixo. Foi aí que não pari um filho, mas pari um relato que conta como foi que eu fui para na mesa de cirurgia:

Rio de Janeiro, 28 de março de 2011.

Hj João Miguel completa 11 dias de vida. Neste minuto ele dorme no carrinho ao meu lado e por isso posso escrever o relato do nascimento do meu filhote para dividir com vcs.

O nascimento do João Miguel começa a muito mais tempo que 11 dias, começa quando nós decidimos q já era hora da família crescer.

Era início de 2009, nós acabávamos de voltar de Buenos Aires, onde vivemos por 6 meses por ocasião de um curso q eu fui fazer por lá. Estava insatisfeita com os rumos do meu trabalho, insatisfeita de viver no Rio e decidimos q era hora de ter um filho, gozar a licença maternidade, abandonar o emprego e mudar de cidade. Grandes planos, grandes aventuras em vista.

Entretanto os planos, já de início, começaram a parecer um pouco mais complexos do q eu previa… “Ué, mas não basta para de evitar o filho pra engravidar??”  Era assim q eu pensava, mas não foi assim q aconteceu. Tive q esperar um ano e meio pra João Miguel resolver aparecer. Eu e meu marido já tínhamos feito todos os exames possíveis e todos o resultados diziam q nós não tínhamos nenhum impedimento.

Era Junho de 2010 quando soube q estava grávida. Corri pro meu GO (Ginecologista Obstetra) e tb pra internet. Eu queria saber tudo sobre gestação! Foi assim q eu achei a GPM. Antes de encontrar a GPM eu já queria um parto normal, mas foi por causa da comunidade q eu descobri a máfia das cesáreas, foi por causa da comunidade q eu deixei meu GO e fui atrás do Dr. Rodrigo Vianna, médico humanizado que me passou muita confiança na época acerca da minha capacidade de parir.

Passei uma gestação ultra mega tranqüila, amei estar grávida, me sentia linda com o barrigão, super bem disposta. Eu tinha tudo pra ter meu PN (parto normal), estava bem informada, tinha o apoio da família, tinha o acompanhamento de um médico humanizado e o BB estava cefálico.

Quando completei 40 semanas(sábado 12/03 – a DPP) comecei  a sentir umas contraçõezinhas durante o dia.

Domingo – 13/03

Acordei às 4h da manhã por causa de uma contração. Senti fome e fui a cozinha fazer uma boquinha, outra contração(já?!), fui ao banheiro e mais uma… Vixi, achei melhor cronometrá-las. Foi assim  q percebi q elas estavam sincronizadas com espaçamento de 10 minutos. Às 5h acordei o marido pra avisar q estava com contrações, mas q ele podia voltar a dormir, quando estivesse de 5 em 5 eu chamava de novo.

A dor não era muita, fiquei na sala com o pc ligado no contraction master, as contrações foram se aproximando e às 7h da manhã elas já estavam bem regulares, de 5 em 5 minutos.

Ligamos para o Dr. Rodrigo e fomos para a maternidade pela 1ª vez. Lá chegando, o dr. Rodrigo fez o toque e descobriu: 1 cm de dilatação. Recomendou q voltássemos pra casa e q voltasse a ligar pra ele quando as contrações estivessem de 5 em 5, mas beeeem doídas.

Passei o dia em casa com contrações ora de 5 em 5, ora de 10 em 10, sentindo dor, mas nada de subir pelas paredes. Consegui dormir de noite.

2ª – feira – 14/03

Acordei em torno das 3 e pouca da manhã com contrações beeeeeeem doloridas de 10 em 10. Rapidamente elas começaram a dar menor espaço de tempo. Às 4 da matina elas estavam suuuuuper doloridas e de 5 em 5, às 4:30 já estavam de 3 em 3. Mandei o marido acordar o Dr. Rodrigo pela 2ª vez e fomos pra maternidade.

Estava toda feliz, certa de q meu bb viria ao mundo neste dia, mas ao cruzar a Ponte Rio-Niterói (morava no Rio e a maternidade era em Niterói) as contrações voltaram a ficar de 5 em 5 e eu tive dúvidas…

Quando cheguei a maternidade, Dr. Rodrigo já estava lá e ao me dar o toque constatou dilatação de… de… de… 1 cm! Mas 1 cm??? “O q faço agora??” Dr. Rodrigo disse q até poderia me internar, mas q sugeria q eu fosse pra casa e retornasse quando as contrações estivessem de 3 em 3 por pelo menos 40 minutos. É claro q eu preferi voltar pra casa.

Naquele dia passei a manhã toda ao lado do marido com contrações doloridas à beça, de 5 em 5 minutos. Por volta das 13horas, para minha tristeza, as contrações começaram a espaçar: 10 em 10, mas continuavam doloridas.

Passei a 2ª feira inteira assim: contrações ritmadas e doloridas. O marido suspendeu todos os pacientes, ficou em casa comigo. Eu alternava entre colo do marido, chuveiro, andar rebolando, cantar as músicas da playlist do João Miguel, rezar pra ele nascer e nada…

No fim da tarde as contrações perderam o ritmo, mas não a força: 10, 10, 10, 15, 20, 5, 5,5, 5, 30, 40, 10…  Assim foi até o dia seguinte, garantindo uma noite praticamente em claro pra mim e pro marido.

3ª feira  – 15/03

Depois da noite praticamente em claro “acordei” com contrações irregulares: 15, 20, 30, 10, 10, 30; mas ainda muito doloridas. Nessa manhã de terça o marido tb permaneceu ao meu lado fazendo shiatsu e acupuntura para aliviar as dores das contrações, contudo uma nova dor, bastante incômoda, surgiu. Era uma dor estranha q irradiava pela minha perna esquerda e que, quando vinha, me imobilizava, não me deixava andar, rebolar e nem nada… Eu tinha q ficar ali “curtindo” as duas dores totalmente parada!!

Liguei pro Dr. Rodrigo e pedi pra ele me atender de encaixe no consultório. Eu queria auscultar o coração do João Miguel. Ele achou bom, pois assim eu pegaria a guia pra fazer uma doplerfluxometria.

Na parte da tarde as contrações seguiam irregulares e bastante doloridas, mas a verdade é q eu já estava me acostumando com as dores das contrações eu já sabia q doíam pra caramba. O q me surpreendia era a danada da dor na perna q a cada contração vinha pior.

No consultório do Dr. Rodrigo descobri q minha dilatação continuava em 1cm!!! Coração ok. Peguei a guia do dopler. Mas e a dor na perna??? “Ah… Tudo indica q suas contrações de alguma forma estão afetando o ciático.” Eu estava determinada a ter meu Parto Natural, ainda q a essa altura a família inteira telefonasse contando roteiros de filmes dignos de Hitchcock ou Zé do Caixão.

Voltei pra casa e marquei o dopler para o dia seguinte na hora do almoço. O resto da terça foi um suplício. A dor da perna só piorava eu começava a me sentir muito cansada.

Nessa noite eu não dormi absolutamente NADA. Eu q sempre dormi a gestação inteira… Minhas contrações ficaram a noite toda de 10 em 10 minutos e eu não conseguia achar nenhuma posição sem dor. A sensação que eu tinha era que o João Miguel havia arranjado uma nova posição dentro da minha barriga, pois não conseguia deitar do lado esquerdo, nem deitar do lado direito, nem deitar de barriga pra cima e nem sentar de maneira confortável!!! Passei a noite inteira de pé ou sentada num banquinho com as costas eretas. Foi um horror…

4ª-feira – 16/03

Eu estava exausta e a tal dor na perna chegou ao nível do choro. Cada contração q vinha lá estava eu, imóvel, apoiando todo meu peso apenas na perna direita e tendo q sentir as duas grandes dores sem poder fazer nada para aliviar.

Passei a manhã inteira debaixo do chuveiro com contrações de 10 em 10.

Na hora do almoço fui fazer o dopler. Resultado: oxigenação do BB está ok, mas ILA em 4.

Ligamos para o Dr. Rodrigo. Ele disse que poderíamos aguardar até o dia seguinte. No dia seguinte deveríamos encontrá-lo na maternidade pra fazer nova ultra, se o líquido baixasse mais daí teríamos q induzir o parto. Mas… quem sabe eu ainda não engrenava naturalmente em TP essa noite?

Fomos pra casa, eu sentia muuuuuuita dor, chorava de dor, mas, como as contrações começaram a vir de 5 em 5, estava perseverante.

Quando começou a anoitecer vi minhas forças desaparecerem: as contrações voltaram a espaçar, eu continuava sentindo muita dor e já sabia q seria mais uma noite em claro.

Pedi ao marido q ligasse pro Dr. Rodrigo e perguntasse se havia alguma coisa pra dor q eu pudesse tomar.

Dr. Rodrigo disse q não, q não havia.

Meu marido e minha mãe q sempre apoiaram minha busca por um parto natural, começaram a achar q eu passava dos limites, q não havia nada de humanizado na dor q eu tava sentindo. Eu me agarrava aos meus planos do meu parto natural com todas as forças q eu tinha, mas confesso q depois de 4 dias sentindo dor e dormindo mal minhas forças já estavam acabando.

Mãe e marido sugeriram q fôssemos para a maternidade, Dr. Rodrigo faria o toque e induziria o parto.  Eu topei, já topei aos prantos, pois já previa. Sentia-me exausta, um fracasso como mulher. Chorava pela insuportável dor na perna, chorava pelo destino anunciado.

Na maternidade minhas previsões se confirmavam, eu continuava com 1cm de dilatação. Dr. Rodrigo me perguntou se eu gostaria de induzir. Eu… disse q não! Eu não suportava mais aquele sofrimento, e não me refiro às contrações, refiro-me à tenebrosa dor do ciático. A dor no ciático, a tal dor na perna, tinha acabado comigo. Eu não suportaria mais horas seguidas de TP, contrações, sem poder me mexer. Eu só queria q aquela terrível dor na perna cessasse!

Foi assim q eu fui parar na mesa de cirurgia…

Foram momentos nos quais meu marido tentava me convencer de que eu devia me alegrar pq meu filho estava chegando, mas eu me sentia frustrada, cansada, derrotada.

Ao abrir minha barriga o Dr. Rodrigo disse q já havia mecônio, o bb estava seco e que pra completar estava DE FACE*, muito mal posicionado.

Ou seja depois de ler tuuuuuuuuuuudo sobre parto natural, defendê-lo com unhas e dentes eu fui presenteada com uma cesárea. Eu dizia pra mim mesma q ela fora necessária, afinal:

– eu passei 4 dias em TP;

– só dilatei 1 cm,

– ILA em 4,

– mecônio presente,

– bb de face e

pra completar: a maldita dor no ciático.

O pior é q eu sabia q isoladamente nenhum dos motivos acima era suficiente para justificar uma cesárea, mas e todos juntos??? Até q ponto eu deveria ter segurado a onda em prol dos meus ideais? Qual é o limite do que chamamos de humanizado?”
(O Relato acima foi publicado pela primeira vez na comunidade GPM em março de 2011)

Ei, Melania, a gente se vê no meu VBAC? rs

*“O bebé pode ter uma “apresentação de face”, o que acontece em cerca de 1% das gravidezes, quando o feto se apresenta de cabeça para baixo, mas com o pescoço arqueado, de modo que a primeira parte a sair pela vagina é a face, contrariando a posição vulgar de queixo encostado ao pescoço. Normalmente é necessário recorrer à cesariana porque, nessa posição a cabeça do bebé não cabe no canal de nascimento.” Fonte:  http://www.abcdobebe.com/parto/complicacao-no-parto.html
face

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5 opiniões sobre “Eu não pari, e aí?

  1. nossa, ler isso fez voltar no tempo, lembro da expectativa, da gpm… Mas tb aprendi que somos seres humanos, por mais conhecimento e vontade ainda precisamos aprender reconhecer nossos limites…. Vc lutou e graças a Deus deu tudo certo! Bj

  2. Bom saber que existem relatos parecidos com o meu. Não esperei tanto tempo quanto você, mas também tive só um dedo de dilatação em todo o tempo e bebê de face (só soube depois que vi o relatório médico), além de uma circular frouxa de cordão. Acredito que exista máfia de cesarea sim, os blogs da vida me incentivaram a trocar de profissional! … Mas existem casos necessários SIM… Também tentarei normal no próximo filho… Acredito que Deus me abençoou com uma equipe maravilhosa e a chance de não julgar os outros por como decidem que seus filhos venham ao mundo, desde que venham com saúde.

  3. Boa tarde, Daniella. Por acaso encontrei seu relato, e pela primeira vez na vida encontrei alguém relatando a mesma dor lancinante na perna que eu senti!!!! Para mim, a dor na perna foi muito, muito pior do que as contrações.
    Fiquei feliz em saber que sou normal, rs!
    Tudo de bom!

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